segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Concretismo - O projeto verbivocovisual

  
  Em 1952, a poesia concreta tem seu marco inicial com o lançamento da revista "Noigrandes" Fundada pelos poetas Décio Pignatari, Haroldo da Campos e Augusto de Campos.
Trabalhando de forma integrada o som, a visualidade e o sentido das palavras, a poesia concreta propõe novos modos de fazer poesia, visando  a uma " arte geral da palavra"

  O concretismo, sem dúvida foi um dos movimentos mais significativos e ricos da nossa literatura. Desconsiderados por boa parte da imprensa e mesmo da crítica, acusados de fazerem "poesia fria", os poetas concretos tinham em mente a incorporação do espaço e do avanço na esfera tecnológica, buscando uma maneira universal de comunicação, na linha de vanguarda. Com certeza, atingiram seu objetivo e instalaram uma nova percepção do poema, afinado com o olhar do século XX.

  Parece-nos importante salientar alguns aspectos relevantes dessa nova postura. Em primeiro lugar, a ruptura face ao verso implica, necessariamente, a desestabilização do lugar do poeta enquanto um "deus" ou "mito", objeto do culto por trazer a "palavra bela", capaz de encantar e emocionar. Neste sentido, ao trazer o signo em estado de pureza, descontextualizado, ele adquire uma liberdade de significação, resgatando sua historicidade, desde a origem até as camadas de superposição histórica recebidas. Por outro lado, ele poderá se deslocar para onde desejar o leitor, sem ter de seguir a trilha traçada pelo autor: livre das amarras, o signo adquire a consistência de ser, sem comprometimentos, obrigando o leitor a construir uma consciência portadora de sentido.

  Por conta da ruptura com o verso e a presença do signo "puro" (numa época de contaminação excessiva, trazida pelos veículos de comunicação de massa, que trazem a perda de sentido pela reprodução), fica o leitor na contingência de participar do processo criativo, dando significação às palavras, já que elas não se oferecem como doadoras. É, pois, a vivência participativa na esfera da criação que resgata o lugar do leitor (diferente do "ledor", que se dedica à superficialidade das coisas ditas, satisfazendo apenas as emoções "epidérmicas") como aquele capaz de interpretar. Saliente-se, então, a enorme importância do gesto libertário do poeta, ao abdicar do controle sobre o leitor.

  O gesto pressupõe, igualmente, uma postura política, na medida em que, ao desconstituir a possibilidade de mitificação, rompe com a ideologia do sistema, que insiste em auratizar a fala literária, endeusando o artista. Ao fazê-lo, presta um desserviço à arte, na medida em que cria um bloqueio, impedindo o acesso. Na verdade, o mito é, foi e será sempre uma fala do poder. À arte, sempre transgressora, cabe a função de profanar, como o faz o Concretismo, lembrando a parcela dionisíaca da literatura, às voltas muito mais com o oprimido do que com o opressor. Assim, longe de se constituir num "mito", ou um "deus", o poeta se torna um homem como qualquer outro, capaz de dialogar com todos os homens, num gesto de solidariedade humana (e não "divina").
  
  Ao fazê-lo, o poeta concreto resgata o sentido original da lírica, como aquela que fala do desejo. Ao expor a falta, é gerada a necessidade de completude (a fala do leitor), tornando-se tanto mais desejada porque capaz de seduzir (lembremos ser a sedução própria do feminino, ficando a parcela masculina com o discurso do poder). A poesia, por ser feminina, é ambígua, pressupondo necessariamente o diálogo, a dialética. Instala-se, portanto, a percepção do outro como diferença e completude, um jogo de morte/vida: morte, porque o "outro" é sempre a anulação do "eu"; vida porque o "eu" precisa da diferença para ser.
Neste momento, parece necessário salientar a incorporação da espacialidade ao poema. Numa época em que se constrói um olhar ex-cêntrico (deslocado para a mundaneidade), desatento pelo bombardeio feérico das tagarelices, vazias e imperativas na ânsia de persuasão (nada melhor que os meios de comunicação de massa para metaforizarem concretamente esta constatação), o signo espacializado numa página de papel obriga o leitor a redimensionar o olhar e a ouvir o silêncio.


















Por Ana Sousa

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